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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Alguém

Conheci uma rapariga, em tempos. Uma rapariga que desconhecia o seu valor. Uma rapariga que se deixou perder, ou então fugiu de si para nunca mais se conseguir encontrar. Hoje em dia pergunto-me como desperdiçou tanta alma em projectos de vida sem pernas para andar. Ela via-lhes pernas, mas era a única. Hoje em dia pergunto-me como se colocou naquela posição de fragilidade perante o inimigo, que na verdade era ela mesma. Não podia ter amor por si. 
Conheci uma rapariga, mas os caminhos que tomou deixaram-na irreconhecível. Os meses, os anos, em cativeiro na sua cabeça, sem contacto exterior, sem apoio alheio, sujeita aos seus próprios defeitos tornaram-na incapaz de se transpor para a realidade. Tornaram-na fraca demais para exercer toda a capacidade que outrora teve para mudar-se a si mesma, e a tudo o que a rodeava. 
Essa prisão mental, esse cativeiro em que se trancou por iniciativa, como forma de protecção ou apenas de descanso, tentei quebra-lo vezes sem conta, sem sucesso, mas sempre na esperança de deixar aberta uma fresta por onde ela pudesse ver novamente o Mundo com os seus olhos.
Fracassei. 
Ela era incansável em tudo o que fazia, e consciente ou inconscientemente, foi-lo ao trancar-se em si. Procurei em torno dela algo que a fizesse agarrar-se a mim, a realidade que nos rodeia, mas parecia sempre querer fechar-me os olhos. 
Se talvez tivesse tentado abrir-lhe o coração, se tivesse tentado despir-lhe todas aquelas magoas que apertava contra si, ela se tornasse mais leve. Mais transparente.
Os olhos dela eram grandes buracos, não por serem negros, porque o seu tom assemelhava-se ao avelã, mas por serem capazes de transportar quem os olhasse fundo a tudo o que os fazia verter. Ela sorria e o seu ar sereno transbordava confiança, mas apenas aquela confiança que se desfaz ao toque, que desaparece assim que nos aproximamos um bocadinho mais. Ela tentava esconder, mas tinha mais feridas dentro de si do que nos joelhos esfolados. 
Eu conheci uma rapariga em tempos, de quem me orgulhava por mais erros que cometesse, de quem sabia formas e feitios de cor, de quem conhecia as capacidades. Esses tempos passaram. Continuo a vê-la todos os dias, mas já não a conheço. Ela passa por mim com o mesmo ar insolente de quem sabe os passos que da mas desconhece tudo o que a rodeia.  Ja não me fala ao coração. Ja não a consigo ouvir.
Consigo somente olha-la no espelho, ver o meu reflexo, mas já não a conheço.